Paradise*

Aí a gente cresce.

Mas às vezes, não importa o quanto o tempo passe, a gente ainda se sente com 15 anos, tentando entender o mundo. A gente ainda acha que não sabe bem como jogar o jogo da vida, com todas essas regras que ninguém explicou direito.

E ainda sente que não está totalmente preparado pra assumir as grandes responsabilidades. Pagar boletos? Pfff. Isso é fichinha. Pense liderar um time. Escrever projetos que afetam outras pessoas. Ter seu trabalho exposto à crítica alheia. Ficar à frente de uma sala de aula e ser responsável por o que aquelas pessoinhas vão aprender.

E tem todos aqueles sonhos… não era pra ser mais fácil? Onde estão aquelas amizades com quem a gente podia passar a tarde fazendo planos impossíveis para o futuro? Onde está aquela força infinita pra mudar o mundo? Eu acho que ainda está aqui, batendo de frente com as tais regras que ninguém explica.

E a pior parte é perceber que o coração não acompanhou o tempo. Que você ainda sonha com um amor simples e cheio de aventura. Aquele que te abraça e parece casa, com quem você quer viajar pra praia e pro mundo inteiro, só com uma mochila nas costas. Mas aí tem mais regras, e dessa vez elas são ainda mais complicadas…

É, parece que a vida não vem com manual… O negócio é não deixar o peso da realidade quebrar nossas asas. E esperar pelas noites de tempestade pra sonhar mais longe.

*É, aquela música do Coldplay. Altamente recomendada, por sinal. =)

Do outro lado (conto)

Ele não entendia relacionamentos como jogos de estratégia.

Para ele, a paixão sempre pareceu uma dança. Mais que preocupar-se com passos ensaiados, é permitir-se a intimidade de um encontro musicado, aproximando-se fisicamente a ponto de se expor. Acredita que quem dança junto sente nosso coração acelerar, identifica na pele o efeito que tem sobre nós.

Para ele, tem a ver com permitir que o outro lado às vezes dite o ritmo, e seguir a música… Se entregar ao momento, estar ali presente de corpo e alma para o que der e vier. Deleitar-se na realidade do que a outra pessoa é, e permitir que ela faça o mesmo, sem pudor nem medo. Desnudar-se, e não só literalmente, entre quatro paredes (e onde mais a imaginação permitir).

Paixão, para esse moço, é estar entregue, e isso assusta. Mesmo assim, ele prefere acreditar que é preciso apostar alto. Por isso nunca entendeu os joguinhos modernos dentro das relações, onde são oferecidas migalhas de afeto e espera-se a contrapartida para ver se vai ou não…

Ele entende sentimento como intensidade. E que só dá pra saber se vamos querer entrar nessa dança com alguém se enxergamos o outro lado por inteiro. Por isso ele acredita nessa voz interna dizendo que a vida vai recompensá-lo por se entregar demais.

É tão pouco o que se vê (conto)

Eu sou só eu. E não pense que sou mais. Não me compre pelos sorrisos nas fotografias postadas nas redes sociais, ou pelas músicas alegres que compartilho. Meu sorriso está quebrado, e na vida real ele tem sido bem mais raro. No spotify, as músicas têm soado bem mais melancólicas.

Não me tome por alguém sempre otimista, tenho meus momentos de dor. Fui aquela pessoa pululante que já acreditou no amor e achava que cada dia trazia novas possibilidades do impossível acontecer. Agora, durmo e acordo tentando apenas ser um pouco mais agradável, um pouco mais digna de tudo o que recebo, da alegria dos meus amigos e bênçãos presentes na minha vida.

Não pense também que sou uma pessoa ruim, ou tenho a intenção de passar algo que não é verdadeiro. Ultimamente, tenho apenas tentado ser eu e entender como me sinto em relação a muitas coisas. É que eu acreditei, por muito tempo, que as pessoas tinham o mesmo compromisso com a verdade que eu tenho. Recentemente, descobri que o jogo é um pouco diferente. Elas sentem diferente, e a vida é assim. Então eu tenho tentado me proteger, observar e entender.

Não me entenda mal, ainda acho o amor uma coisa bonita. Só percebi que não entendo bem como ele funciona. Percebi também que muita coisa que eu julgava ser amor era alguma outra coisa.

Então, por favor, não tente me ler através do pouco que se vê. Dentro de um oceano de emoções e intensidades, eu tenho tentado apenas não me afogar. Eu sou aquela mulher sentada na areia observando o mar, sem a pretensão de navegar agora. Enquanto o sol nasce e se põe, eu finjo não enxergar que ainda tenho esperanças de algo maior e transcendente. Algo de verdade.  E apenas observo o ir e vir na espuma das ondas.

Das imperfeições

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Não, eu não acredito em paixão de redes sociais. Não acredito na perfeição construída para o público. Nessa necessidade de provar para quem quiser ver que tudo está absurdamente bem. Também não acredito nos musos fitness do Instagram, nas rotinas de beleza perfeitas do Youtube ou no humor sempre on time do Twitter.

No entanto, sou uma romântica incurável. Acredito em amores que duram pra sempre, em encontros marcados pelo destino, em beijos que fazem a gente se apaixonar. Acredito em gritar para o mundo todo o quanto alguém te faz feliz (não necessariamente no Facebook).  Acredito em querer ter um corpo saudável e aproveitá-lo ao máximo junto a quem se gosta – família, amigos e amores. E em fotografar a farofada na praia e postar marcando todo mundo pra passar vergonha. Acredito em gente que às vezes vai dormir de maquiagem depois de chegar de uma noitada, e em quem ri de si mesmo ao pagar micos monumentais ou cometer erros óbvios.

Acredito na imperfeição do dia a dia e sua beleza incomparável. É que sabe… sou imperfeita e prefiro levar a vida assim, mais próxima da realidade.

Das verdades por aí

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A vida é clichê.

A gente passa um bom tempo lutando contra isso, tentando ser original. Busca um outro olhar, se reinventa o tempo todo, muda de casa, de cidade, de trabalho… E consegue alguns resultados, até. Acaba se conectando com algo que é único na gente.

Mas o fato é que a vida é um grande clichê, e eu só consigo pensar “ainda bem”. Porque os clichês estão aí porque fazem sentido. No fim, é o que a gente busca: paz de espírito, um grande amor, uma família bonita, aquele trabalho que te realiza de alguma forma, uma casa com cachorro… E não tem nada de errado nisso. Querer os clichês e aceitar isso acaba trazendo uma tranquilidade interior, sabe? Reconecta a gente com nossa humildade. Deixa de lado aquele peso constante em se provar melhor que todo mundo, diferentão, one of a kind.

E isso não tem a ver com se acomodar e se contentar com menos. Lutemos sim por expressar o que é único em nós, para dar nossa contribuição e fazer a vida mais colorida e diversa. Mas sem peso, sem medo, sem essa obrigação hipster-vibe. Usemos os clichês como armas do bem, como ferramentas para deixar a vida mais leve e com mais espaço para expressarmos o que realmente é original em nós, e não o que achamos que deveria ser.

É um exercício de honestidade intelectual. E é tão gostoso.

Bisa

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Essa na foto é minha bisavó paterna. Ela não conheceu as redes sociais, talvez nem gostasse de ter sua foto exposta aqui. Ela não conheceu as ânsias modernas, tinha questões muito práticas da vida para se preocupar. Passou por muita coisa, pelo que ouvi das suas histórias… coisas que eu não sei se daria conta.

Ela não me conheceu, mas faz parte de mim. Ela criou uma linhagem de mulheres fortes, que nem sempre acertam ou sabem o que estão fazendo, mas caminham com os próprios pés e vão adiante. Ela foi vítima de uma sociedade machista, da romantização de vivências matrimoniais nem sempre saudáveis. Foi uma sobrevivente, uma lutadora… provavelmente tinha um monte de defeitos, mas o que herdamos através da sua história foi sua força, sua coragem.

Bisa, confesso que estamos meio perdidas aqui. O mundo mudou muito desde a sua partida, e tenho certeza que suas histórias me ajudariam a entender um pouco sobre como tiramos ferramentas de nossa própria realidade para nos guiarmos nas noites escuras de angústia. Mas sou grata por esse DNA guerreiro e independente que você me legou. Sou grata pela oportunidade de, enquanto feminista, poder olhar para trás e ver que você não dependeu de termos acadêmicos e modernos para se movimentar enquanto mulher nesse mundo. Bisa, a gente tá tentando aqui. Dizem que, uma vez pessoas comuns e anônimas, não temos direito a uma história que sobreviva ao tempo. Mas a sua sobrevive na minha gratidão.  E eu a deixo registrada em texto para não esquecer de onde vim.

 

Sobre o extraordinário

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Queremos tanto do futuro, mas levamos uma vida comum.

Somos tão ordinários em nossos pequenos compromissos e hábitos. Tentamos dar sentido à rotina com rituais diários irrelevantes, fazer-nos únicos na forma como preparamos o café ou escovamos os dentes. Nos livros que escolhemos, filmes que assistimos… A vivência de todos os dias (ou o capitalismo, a sociedade de consumo, enfim…) nos faz acreditar que devemos nos destacar através dessas escolhas quase insignificantes.

O que não queremos perceber é que o extraordinário em nós reside exatamente naquilo que duvidamos, nas coisas que pulsam dentro da alma, mas das quais fugimos por acreditar que nunca seremos bons o bastante, que não há o suficiente para oferecer.

Ensaiamos uma prática desse pulsar, imaginamos como seria fantástico oferece-lo à realidade se só… se apenas eu… E guardamos de novo naquela caixinha escondida, onde não corremos o risco de sermos julgados e execrados por nossa falta de talento, habilidade, o que quer que seu juiz interno escolha para te tolher.

Arriscar o extraordinário começa com o prosaico, com a arte do fazer e refazer algo que parece nunca estar pronto aos nossos olhos. É substituir a ritualidade desse pequeno baile de máscaras que vivemos por um processo de externar e trabalhar em algo que nos é tão natural e querido que beira a banalidade – e por isso negamos seu poder transformador. Por isso não acreditamos em sua excepcionalidade.

Por isso escolho acreditar no poder da ousadia: ousar ser/fazer algo que não se espera, viver além do mundano nas coisas mais corriqueiras. Expor-se no que sabemos ser mais íntimo e frágil, e por isso tão potente. É difícil sair do marasmo da mesmice e não duvidar de si mesmo a cada passo. Mas é inebriante quando se consegue.

 

Inesperado

Atos aleatórios de gentileza.

Amores que a gente não entende muito bem como acontecem.

Fatos aparentemente randômicos que nos trazem até o momento presente.

Pequenas coisas no dia a dia, mudanças súbitas que viram nossas vidas do avesso. Tristezas que nos tiram do eixo, alegrias que nascem dos encontros fortuitos. Sorrisos que mudam a nossa forma de ver a vida. Coisas inesperadas, caminhos que não imaginávamos. Um filme que nos leva a insights e até catarses.

Pessoas que planejamos ficar para sempre em nossas vidas e que decidem tomar outro rumo. Perdas. Ganhos. Amigos que viram irmãos, família, confidentes, amores. Relacionamentos que viram amizades. Amigos que se vão e deixam apenas lembranças. As frases dos nossos pais. Uma estrela cadente para a qual fazemos um pedido e ainda não sabemos se vai se realizar.

Não sabemos quais são as tramas do nosso destino. Tudo parece fora do nosso controle, e de fato está. Mas de alguma forma, tudo nos traz a esse momento exato. O momento que percebemos que tudo vai ficar bem. O momento que sentimos que uma mão invisível nos guia para onde devemos ir, porque de alguma forma é aqui que devíamos estar.

Podemos apenas esperar que aconteça o que o nosso coração e os nossos egos pedem. Mas de alguma forma, como ensina o Vedanta, o que vem é o melhor que pode acontecer.