Sobre o extraordinário

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Queremos tanto do futuro, mas levamos uma vida comum.

Somos tão ordinários em nossos pequenos compromissos e hábitos. Tentamos dar sentido à rotina com rituais diários irrelevantes, fazer-nos únicos na forma como preparamos o café ou escovamos os dentes. Nos livros que escolhemos, filmes que assistimos… A vivência de todos os dias (ou o capitalismo, a sociedade de consumo, enfim…) nos faz acreditar que devemos nos destacar através dessas escolhas quase insignificantes.

O que não queremos perceber é que o extraordinário em nós reside exatamente naquilo que duvidamos, nas coisas que pulsam dentro da alma, mas das quais fugimos por acreditar que nunca seremos bons o bastante, que não há o suficiente para oferecer.

Ensaiamos uma prática desse pulsar, imaginamos como seria fantástico oferece-lo à realidade se só… se apenas eu… E guardamos de novo naquela caixinha escondida, onde não corremos o risco de sermos julgados e execrados por nossa falta de talento, habilidade, o que quer que seu juiz interno escolha para te tolher.

Arriscar o extraordinário começa com o prosaico, com a arte do fazer e refazer algo que parece nunca estar pronto aos nossos olhos. É substituir a ritualidade desse pequeno baile de máscaras que vivemos por um processo de externar e trabalhar em algo que nos é tão natural e querido que beira a banalidade – e por isso negamos seu poder transformador. Por isso não acreditamos em sua excepcionalidade.

Por isso escolho acreditar no poder da ousadia: ousar ser/fazer algo que não se espera, viver além do mundano nas coisas mais corriqueiras. Expor-se no que sabemos ser mais íntimo e frágil, e por isso tão potente. É difícil sair do marasmo da mesmice e não duvidar de si mesmo a cada passo. Mas é inebriante quando se consegue.

 

Inesperado

Atos aleatórios de gentileza.

Amores que a gente não entende muito bem como acontecem.

Fatos aparentemente randômicos que nos trazem até o momento presente.

Pequenas coisas no dia a dia, mudanças súbitas que viram nossas vidas do avesso. Tristezas que nos tiram do eixo, alegrias que nascem dos encontros fortuitos. Sorrisos que mudam a nossa forma de ver a vida. Coisas inesperadas, caminhos que não imaginávamos. Um filme que nos leva a insights e até catarses.

Pessoas que planejamos ficar para sempre em nossas vidas e que decidem tomar outro rumo. Perdas. Ganhos. Amigos que viram irmãos, família, confidentes, amores. Relacionamentos que viram amizades. Amigos que se vão e deixam apenas lembranças. As frases dos nossos pais. Uma estrela cadente para a qual fazemos um pedido e ainda não sabemos se vai se realizar.

Não sabemos quais são as tramas do nosso destino. Tudo parece fora do nosso controle, e de fato está. Mas de alguma forma, tudo nos traz a esse momento exato. O momento que percebemos que tudo vai ficar bem. O momento que sentimos que uma mão invisível nos guia para onde devemos ir, porque de alguma forma é aqui que devíamos estar.

Podemos apenas esperar que aconteça o que o nosso coração e os nossos egos pedem. Mas de alguma forma, como ensina o Vedanta, o que vem é o melhor que pode acontecer.

Brigadeiro

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Hoje eu fiz brigadeiro.

Porque às vezes é necessário admitir que não está tudo bem. É preciso se permitir ficar de pijama e não querer sair da cama. É preciso deixar a tristeza que está rondando há um tempo vir e tomar seu lugar. Às vezes a gente só tem que se acolher, perceber que não dá pra ser força o tempo todo nem fingir que tá tudo ok.

Hoje eu fiz brigadeiro porque às vezes isso é tudo o que a gente consegue fazer por si. Porque nos simbolismos loucos da psiquê, isso pode ter o efeito de um abraço quentinho e uma palavra de carinho da gente pra gente mesmo.

É difícil ser muralha sempre. A vida ensina a dar conta, mesmo que na marra. Mas tem dias que são mais chuvosos dentro da gente… Não tem chá nem planos ou imaginação que dê conta por si só.

Então eu fiz, e sei que nem gosto tanto assim de brigadeiro. Tá lá aquela panelada de doce no fogão, esperando as colheradas. Mas não importa… O que importa é que precisava ser feito pra deixar a vida mais doce. Só hoje.

Dela

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Ah, ela… essa mulher que não sabe ser pouco. Ela atravessa tanta coisa com o olhar, mas é muralha pros olhares desatentos. De fala suave, até parece calmaria, tempo bom com brisa marítima… Não se engane: ela te distrai com a visão do barco, enquanto seus sentimentos são o mar profundo e denso por baixo dele.

E tanta gente gosta da ideia do que ela representa, mas quem dá conta de arcar a realidade do que ela é? De lidar com essa intensidade que só se apresenta pra quem tiver coragem de transpassar o medo de estender a mão e segurar, e não soltar mais?

Talvez quem se arriscar perceba que há tanto que ela não diz, porque muito do que sente não pode ser traduzido na linguagem do mundo. Porque tem coisa que só pode ser entendida do lado de dentro, e ela não deixa quase ninguém entrar.

E enquanto você acha que ela olha para o nada apenas admirando a paisagem, tempestades se formam e dissipam em seu íntimo, e ela vagueia por eras, vai à lua e volta, e esbarra em todos os sentimentos do mundo, só pra voltar com um pouquinho de cada um deles na curva do sorriso.