Sobre o aborto e a moral cristã

Muito bem, eu estava tentando evitar o assunto porque acho que, depois de tanto tempo, minha bandeira está mais que levantada. Só que tenho ouvido e lido tanta abobrinha a respeito do tema que não resisti. Além disso, esse blog aqui tá precisando voltar pro eixo crítico. 😉 Vamos lá…

Então abriu-se precedente legal para o aborto, e de repente vemos um levante religioso contra essa decisão. Vamos deixar algumas coisas claras aqui: ser a favor do DIREITO ao aborto não quer necessariamente dizer que você deseja que ele aconteça. Quer dizer que você reconhece a mulher como capaz de decidir sobre o próprio corpo e vida. Ninguém aqui está dizendo que o nascimento de uma criança não possa ser maravilhoso, ou que ser mãe é um castigo. Mas vamos desromantizar um pouco a nossa visão… Vem comigo.

É preciso primeiro abrir mão do mito da mulher maternal. Não, a mulher não nasceu para ser mãe. Isso foi um discurso construído em meados do século XIX, quando colocou-se a mulher como guardiã do lar, a fim de estabelecer um modelo normativo de feminilidade (para aprofundamento no tema, recomendo o livro “Do cabaré ao lar” da Margareth Rago). Nem todas as mulheres têm necessidade de um filho para sentirem-se completas. Isso é um fato. E nem todas têm condições, sejam financeiras ou emocionais, de lidar com um fato que mudará sua vida para sempre. Criar um filho vai além do seu nascimento – é uma responsabilidade para a vida. Todos os seus atos serão repensados por causa de um filho. É uma coisa gigantesca.

O problema é quando, além dessa pressão social, temos um estado que acredita poder legislar sobre o corpo e destino da cidadã baseado em preceitos morais religiosos. Se é pra discutir a sacralidade da vida, vamos começar pela vida da mulher que engravidou mas não deseja ser mãe, e tem que recorrer a métodos arriscados para manter sua escolha. O eixo aqui é a vida da mulher, o direito dela de decidir sobre os próprios atos e como um estado paternalista vem contribuindo para a perpetuação de uma lógica machista sobre situações de saúde pública. A vida das mulheres vale muito menos para os anti-abortistas do que a manutenção do status quo e do discurso moralista.

Então, fica a dica: se você é contra o aborto, não aborte. Mas não coloque as suas questões morais sobre a vida das outras pessoas. Se você acha que Deus ou qualquer entidade sagrada vai puni-la pelas decisões dela, deixe isso a cargo Dele e cuide da sua própria vida. Leve seus dogmas para a sua igreja e aprenda a ser uma pessoa melhor a partir deles. Apenas tire seu machismo do caminho, porque nós vamos passar com os nossos direitos. Estejam preparados. =)

 

 

 

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