Livro “O poder dos quietos” – impressões e muito amor

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Sabe quando você tem acesso a algo que realmente muda a sua vida? Esse livro foi isso pra mim. Continuar lendo “Livro “O poder dos quietos” – impressões e muito amor”

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O legado de Foucault – Arqueologia do silêncio

Foucault: o silêncio dos sujeitos, de José Carlos Bruni

p. 35

(…) Foucault vai tentar mostrar, em um posicionamento decididamente não-filosófico, como, mediante mecanismos sociais complexos que incidem sobre os corpos muito antes de atingir as consciências, foram-se dando historicamente mil formas de sujeição: os homens são, antes de mais nada, objetos de poderes, ciências, instituições.

(…) pois, em um único movimento que ao mesmo tempo põe em xeque o Homem (o Sujeito) e o Poder (a Instituição) como campos legítimos em que vêm se inscrever a filosofia e a ciência instituídas, Foucault como que desce aos infernos: antes do Homem Racional e Moral, lá estão, silenciados e excluídos, os loucos e os criminosos. Na verdade, a “morte  do Homem” concerne primeiro o Homem branco, adulto, ocidental, civilizado e normal. A morte do Homem conduz-nos ao caminho daquilo que foi construído como não-humanidade no Homem: a loucura e o crime. Assim, torna-se claro qual Homem as ciências e a filosofia tomam implicitamente como modelo: o Homem de Razão e o Homem de Bem, senhores da ordem, competentes para o exercício da exclusão do Outro. Exclusão: o lugar mais fundo da sujeição. (…) É desse fundo que se pode reconstituir os processos insidiosos de estigmatização, discriminação, marginalização, patologização e confinamento, operando no nível da percepção social, do espaço social, das instituições sociais, do senso comum, do aparelho judiciário, da família, do Estado, do saber médico. De qualquer maneira, o resultado é o mesmo: o silêncio dos sujeitados, silêncio que é o primeiro e mais forte componente da situação de exclusão, a marca mais forte da impossibilidade de se considerar sujeito aquele a quem a fala é de antemão desfigurada ou negada.

p. 36

Arqueologia do silêncio: reconstrução de práticas, saberes, regras e normas que determinam a percepção social do louco, o imaginário que nele se investe, o medo que dele se tem, a proteção que dele se necessita, o espaço peculiar onde é enclausurado (pela família, pelo Estado, pelos juízes, pelos médicos), o olhar que o objetiva.